Publicado em: Vinhos - 14 de janeiro de 2010

O Vinho ao longo dos tempos III

Nas outros textos tratamos o papel do vinho  na sociedade antiga e sua importância durante a Idade Média. Nesta terceira e última parte acompanhe a evolução do processo depois de tempos contubardos como as Guerras Mundiais e a Lei Seca.

Em 1854, um jovem de 26 anos, bacharel em letras, chamado Luis Pasteur, ficou conhecido por estabelecer a teoria da assimetria das moléculas. Essa fama o levou a ser contratado por um empresário para tentar descobrir a causa do avinagramento dos vinhos. Foi quando descobriu que todo processo de fermentação e decomposição orgânica se dá à ação de microorganismos vivos de origem vegetal e mostrou de forma incontrovertida a natureza biológica da fermentação.

Por volta de 1860 apareceu o flagelo mais devastador da história da vinha, a Filoxera (Philloxera Vastatrix), um minúsculo inseto originário dos Estados Unidos que ataca as raízes da videira e a mata. Após quarenta anos já tinha consumido 80% dos vinhedos europeus, pensavam que seria o fim da era do vinho, até que pesquisadores descobriram que as variedades americanas de uva eram imunes a essa praga e começaram a fazer enxertos usando a raiz da uva americana e o tronco da variedade vinífera européia, assim conseguiram fazer com que as vinhas ficassem livres dessa ameaça. Hoje, quase a totalidade dos vinhedos no mundo são enxertados, apenas no Chile e algumas partes da Austrália a filoxera não chegou, onde as parreiras são plantadas diretamente, sem enxertos (pé-franco). Foi nesse cenário totalmente desfavorável que a França continuou a definir o regime de appellations controlées, que baseado no conceito de terroir, eram impostas algumas regras para a produção de vinhos no país (em Médoc, por exemplo, isso ocorreu em 1855), depois essas leis foram sendo aprimoradas até chegar no que é hoje.

Se não bastasse as diversas pragas (oídio, o mofo e a filoxera), ainda vieram a lei seca na América e a segunda guerra mundial, outro golpe que levou bastante tempo para ser assimilado. Em vários aspectos o mundo do vinho levou boa parte do século XX para se recuperar de todas essas turbulências, foram aproximadamente 80 anos de muita dificuldade (de 1860 a 1945).

Após a segunda guerra o consumo de vinho voltou a crescer, porém, era de qualidade mais que duvidosa, mesmo os grandes produtores não tinham condições de produzir no mesmo nível de qualidade de antes e os vendiam a preços muito baixos. Vinhos vindos dos Estados Unidos, África do Sul e Nova Zelândia (na maioria das vezes produzidos por imigrantes europeus que fugiam das diversas crises), mesmo sem tanta tradição e qualidade eram superiores a boa parte dos europeus na época. Também era comum, nos países de novo mundo, principalmente os Estados Unidos, ao produzir seus vinhos os engarrafavam e rotulavam como se fossem de Bordeaux, Châteauneuf Du Pape, Bourgogne, para se beneficiarem do prestigio que essas regiões já tinham na época e também da ignorância enológica do resto do mundo.

Com os oportunistas à solta, a França se viu na necessidade de proteger as suas regiões desse tipo de fraude, pois corriam o risco de terem seus nomes ligados a vinhos de má qualidade produzidos por vinicultores inescrupulosos. Assim deram continuidade na criação do sistema de denominação de origem que conhecemos hoje (a AOC – Appellation d’Origine Controlée) que além de determinar os limites territoriais de cada apelação de origem, determina também, entre outras coisas,  o tipo de uva ser a plantado em determinados terrois, produtividade máxima do vinhedo, além de criarem um conselho fiscalizador para garantirem o cumprimento de todas as imposições no intuito de diferenciar seus vinhos daqueles falsificados.

No século XX a ciência desempenhou um importante papel, começavam as pesquisas sobre vinhedos, climas, fermentação, envelhecimento, etc. Com o conhecimento gerado conseguiam melhorar o vinho e paralelamente o consumo crescia vertiginosamente e cada vez mais surgiam vinícolas em todo o chamado “novo mundo”. Hoje, no início do século XXI, o cenário encontrado é de muito otimismo e prosperidade, com perspectivas de muitas melhorias e grande aumento no consumo dessa que é a mais fascinante das bebidas.

Quem não acompanhou o primeiro texto, leia no link – O vinho no mundo antigo.

Segundo texto – O vinho na Idade Média

Pesquisa de Sidney Lucas – Sommelier Piquiras

Fontes:
Vinhos – Adolfo Alberto Lona
Larousse do Vinho – Vários autores
Atlas Mundial do Vinho – Hugh Johnson e Jancis Robinson
Tintos e Brancos – Saul Galvão

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